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sábado, 3 de junho de 2017

O Aristóteles de Nevogilde ou a filosofia política moreira

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O gosto das maiorias sempre foi para mim um mistério. As razões da preferência de um grande número de pessoas por um determinado coiso ou coisa são para mim fontes inesgotáveis da mais espampanante perplexidade. A popularidade é, portanto, um fenómeno que não entendo. Não entendo fenómenos de massas. Ao contrário da maioria, sou de opinião de que gostos é que se discutem. Sobretudo se inexplicáveis. Não há nada mais discutível do que o inexplicável. Como o temor de Deus, o amor à pátria ou o gosto popular, por exemplo.
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Este postal é sobre um desses fenómenos inexplicáveis. Rui Moreira. O actual presidente do município do Porto. Moreira é um burguesinho da Foz que é muito popular na Pasteleira, e no Aleixo. Atingiu um tal grau de identificação com o populacho que pode fazer absolutamente nada e dizer absurdamente tudo que o seu, digamos assim, prestígio entre as massas não é minimamente beliscado entre as elites, e vice-versa. Moreira podia sair à rua com um revólver e alvejar um sujeito qualquer ao acaso que não lhe acontecia nada (desde que o desinfeliz fosse cigano, preto, mouro, paneleiro pobre ou comuna, claro).
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Moreira fez fortuna com investimentos lá fora. Transportes marítimos. Contentores e tal. Aos trinta e cinco anos vendeu as empresas (e as cargas e os contentores) e dedicou-se a prazeres mais sofisticados. Fez-se dandy. Cultura, laifestaile e assim. Nos tempos livres ainda presidiu durante dez anos aos destinos da Associação Industrial Portuense mas tornou-se conhecido do grande público por comentar casos de futebol (eu já tinha sugerido que ele era um erudito) num pugrama de televisão que se chamava trio d’ataque e que era assim uma espécie de peladinha de câmara com cinco violinos menos dois e sem bola. Ainda hoje escreve uma coluna no jornal A Bola, chama-se a coluna do senador. Entretanto candidatou-se à câmara da imbicta como independente, com o apoio do CDS e venceu, sem espinhas. Governou então durante quatro anos em união-de-facto com dois tipos do PS aos quais no fim deu um xuto no cu para grande gáudio da sua crescente base de apoio, para quem são atitudes assim que fazem um líder político completamente independente dos partidos.
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Ninguém sabe muito bem o que o homem pensa sobre porra nenhuma. Talvez seja mesmo isso que faz a sua aura. A verdade é que as maiorias detestam a política, e os partidos, e o caralho. E Moreira não é um político. É um poeta. As pessoas adoram poetas - como Toni Carreira ou Jesus (o de Nazaré e o do zbórdeng) - falam por metáforas, estranhíssimas e bizarras, que ninguém entende mas em que todos lobrigam profundos e sentenciosos sentidos. Moreira é, por tanto, um poeta apolítico independente dos partidos, esses malvados. Um rebelde sem causa perdão, com causa. Sim, que a sua causa é o Porto. E a sua política o trabalho. Não sei se estão a ver. Exactamente. Como as maiorias gostam.
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Recentemente porém Rui Moreira abriu o coração. Em conferência sobre, segurem-se, “A crise das lideranças”, na universidade portucalense, Moreira partilhou com o mundo e com o imenso universo dos seus apoiantes o esplendor do seu pensamento, digamos assim, “político”. E Moreira, além de poeta, revelou-se um filósofo. E o que diz então Moreira, o Aristóteles de Nevogilde, à rapaziada da Pasteleira (e da Boavista, e do Aleixo), uhn?

- Pois bem, diz que Há um caminho óbvio, e é mais óbvio do que parece, que é um dia nós voltarmos a ter ditaduras. Quando o Salazar chegou ao poder ele criou o nome ditadura nacional e não era nada insultuoso. É bom que se tenha isto como claro. Esta história de que a democracia é uma coisa infalível, que não termina, não é verdade. Vejam o que está a acontecer na Turquia (…) Para termos a nossa soberania económica, na segurança, podemos ter que precisar de ditaduras. Espero que não seja assim, mas pode suceder. Foi isso que aconteceu com o 28 de maio. Portugal estava falido, não havia ordem, não havia disciplina, a 1ª Guerra Mundial tinha sido um desastre e de repente o país quis aquilo. O 28 de maio não foi feito por uma minoria. Isso pode voltar a acontecer”.
Os sublinhados são meus. Digam lá que não é encantador, ah e tal “de repente o país quis aquilo”. Não há como deixá-los falar. Tudo se torna revelador, sem deixar de ser inexplicável.
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- Mas como é possível afinal que uma cidade (a cidade de Almeida Garrett) a quem um rei libertário ofereceu literalmente o seu coração depois de abdicar duas vezes, de repente queira isto?
- A única resposta lógica mas inexplicável, e possivelmente também inquietante, é que talvez o mereça.
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2 comentários:

Virgílio A. P. Machado disse...

Adorei, adorei, adorei!
https://youtu.be/ERAj17y-3yE

Mlaurestim Ferreira disse...

Realmente o Rui Moreira, desculpem o Sr. Presidente, nunca teve uma ideia original. Falar mal dos partidos já não "cola". Esse palavreado já está gasto.