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terça-feira, 16 de julho de 2013

para que se saiba

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Quando tudo aquilo que julgamos decente está em risco (até mesmo um futuro digno para os que mais amamos), já não há alibis morais para a imparcialidade cautelosa, o voyerismo cínico ou a pusilanimidade calculista. É chegado o momento em que até o mais recalcitrante dos indivídualistas não tem o direito à liberdade moral da indiferença. 
Mesmo alguém como eu, um artista habituado a observar os factos com o cepticismo distanciado, mas apesar de tudo cómodo, dos que deixam testemunho, deve fazer algo mais efectivo – participar - tomar partido.
Foi o que fizeram outros, muito maiores do que eu, antes de mim: Goya, pela razão, David, pela revolução; Courbet, pela comuna, Picasso, pela civilização (e todos contra a barbárie, que é o que se aproxima).
Pela primeira vez na minha vida, aos cinquenta anos, terei uma participação activa na política, para além do voto (de que nunca me abstive nem usei em branco). Serei candidato por uma das listas concorrentes às próximas eleições municipais na Figueira da Foz. Quero poder responder a minha filha agora adolescente, de cabeça levantada quando ela mo perguntar, de que lado estava quando tudo se desmoronava e o que fiz quanto a isso.

Outras razões dessa decisão são o que tento explicar no texto que se segue, que espero sucinto e suficientemente claro, eloquente e por isso distinto dos linguados dúbios e sofismáticos de sua eiscelência o pguesidente da guepública. Todavia, à sua semelhança, também o farei publicar (para quem prefira) na minha página do Face-Book.

Breve Declaração Política
(com alguns àpartes e uma nota de rodapé)
em que se explica
a quem interesse e ao povo em geral
porque me envolvi na política
e me achei candidato pla lista dos comunistas
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Sou um filho deserdado e céptico dos ideais da revolução francesa. Desprovido de convicções (sou mais de percepções, ou sensações), não acredito em nada. Nem num ser supremo, como Robespierre; nem nas maravilhas da ciência e da técnica, como os ingénuos; nem nos benefícios da caridadezinha, como os tontos; nem nas virtualidades dos mercados, como os velhacos; nem sequer (ai de mim) na exequibilidade da igualdade entre os homens, como Babeuf e os comunistas (isto apesar de, racionalmente, concordar que sem a igualdade a liberdade e a fraternidade não são mais do que duas tristes falácias absurdas).

Sendo um cidadão perplexo porém assertivo, talvez incómodo (tenho opinião e não me importo de a usar) e estando-me vedado o acesso aos meios de comunicação tradicionais (et pour cause), aproveitei a simplicidade de acesso às novas tecnologias da informação e criei um blogue que é uma espécie de diário pessoal e veículo de divulgação do meu trabalho (sou artista plástico) e da minha opinião, reflectida, sobre este e aquilo a que Mário Dionísio chamava “o rumor do mundo”. Aí escrevo, e assino em baixo, exactamente o que penso, sem pruridos nem complacências, sobre tudo o que me ocorre: da vida, do desenho, da arte, da beleza, da justiça, da cultura, do humor, da viagem, da amizade, da liberdade de expressão, da fealdade, da estupidez, da morte.

Todavia, embora me manifeste frequentemente também sobre política, nunca participei nela activamente. Nunca - jamais - militei em qualquer organização nem desempenhei qualquer cargo público, eleito ou por nomeação - porque nunca me convidaram e porque não sou de me oferecer (o bom-senso e uma consciência aguda das minhas limitações têm-me impedido constantemente de o fazer). Isto não é sequer um traço de carácter, apenas um reflexo de temperamento: não sou de grupos - nunca fui escuteiro, nem da mocidade portuguesa, tampouco jotinha numa associação de estudantes e nem sequer fui à tropa; não sou sócio da Naval, nem do Ginásio, de nenhuma das filarmónicas, nem sequer dos Bombeiros e não dou para o Banco Alimentar (enfim, dou mas não me orgulho disso. Só o faço quando me sinto demasiado deprimido e impotente para fazer algo mais efectivo pela justiça).
Sou, sempre fui, um caso isolado. Um caso à parte, um outsider. Aquilo a que se chama um independente.
Não sou todavia um pária anti-social: já fundei uma empresa, uma revista de humor, uma cooperativa cultural, um jornal de informação, até uma associação de artistas. Tenho cinquenta anos.

Posto isto digamos que o meu campo ideológico natural se situa nessa região a que genericamente se chama Esquerda - mais precisamente algures à direita de Babeuf e à esquerda de Robespierre ou vice-versa, já não sei bem - em todo o caso é nesse juste-milieu que penso que está a virtude, que é o terror dos inimigos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.*

Nestes infelizes tempos que nos foram dados viver, a estupidez ganha terreno todos os dias espalhando a impunidade e um nefando lastro de injustiças e iniquidades. A incompetência e a venalidade na gestão do erário público atingem cúmulos nunca vistos e os mesmos de sempre, cujo objectivo único tem sido beneficiar-se e a interesses privados, assumem de novo aquela linguagem cínica, melíflua e acanalhada com que habitualmente logram as expectativas de um eleitorado já estupidificado pelo entretenimento cretino, pelo comentário crapuloso e pela informação parcial e manipulada mais difundidos.
Foi neste contexto que resolvi ignorar os pruridos de modéstia quanto às minhas capacidades e aceitei o convite que me foi feito pelos responsáveis locais da CDU (Coligação Democrática Unitária) para me juntar a eles na luta por dias melhores, uma cidadania mais igualitária e uma Cidade mais justa, enfim, por Vida mais inteligente.
É o mínimo que pode fazer alguém que não acredita em nada: juntar-se aos que acreditam numa ideia decente da vida em comunidade e sempre tiveram uma prática coerente com esse conceito.

Assim, o meu nome (e provavelmente a minha triste figura) constará na lista de candidatos da coligação aos orgãos de poder local nas próximas eleições municipais. Devo dizer que me agrada a moral dos comunistas – é de uma substância, surpreendentemente ou talvez não, composta em partes iguais pelas mesmas quatro virtudes cardeais dos antigos cristãos - ou seja, não é elástica nem é de plástico; exactamente como eu gosto. Talvez por isso, assinei voluntariamente um termo de responsabilidade (que eles exigem apenas aos seus militantes, não aos independentes) no qual me comprometo, em caso de ser eleito, a manter o cargo à disposição da coligação que represento; a não enriquecer com a política (o remanescente do que auferir no exercício desse cargo que exceder os meus actuais rendimentos será canalizado para um fundo em benefício de freguesias ou concelhos com eleitos da CDU) e a defender exclusivamente os pressupostos do seu manifesto eleitoral.

Aos meus adversários políticos, a quem considero que apesar de tudo devo lealdade - mesmo àqueles que se reúnem no eixo que se identifica pela expressão imbecil de “arco da governação” (como se, pelo estado actual do país e da região, tal coisa pudesse sequer ser respeitável) – sinto que devo três reparos e uma satisfação:

. É verdade simsenhores que somos do contra, como nos acusam. Não podia, aliás, ser de outra maneira; somos decididamente contra tudo o que praticais e contra todos os que vos apoiam.

. Não é verdade nãosenhores que não tenhamos programa ou propostas construtivas. As nossas propostas são o reflexo invertido da vossa prática, isto é, o seu contrário (o inverso da destruição só pode ser edificante). Ou seja, o programa em si é virar tudo às avessas; a começar pela pirâmide social, virá-la ao contrário, invertê-la - só para ver como é que fica - depois, arrasá-la, claro. A ideia é, depois, construir tudo de novo e de outra maneira.
Trata-se, como vedes, de um “vasto programa”. Ambicioso. E com altos custos, obviamente, para vós - mas “não tenhais medo”; como decerto sabereis, pois acreditais Nele, “o que custa é que Deus agradece”.

3º. Também não é verdade que a lista da Coligação Democrática Unitária seja, como o rótulo que lhe pretendem colar depreciativamente, uma “lista de ortodoxos” - a simples verificação da inclusão de alguém como eu na sua lista de candidatos deve bastar para comprovar a extrema generosidade e abertura de espírito da CDU em relação às heterodoxias mais explícitas.

Pelo que a próxima vez que um qualquer pentelho lambe-cus (sei que isto é uma redundância mas, como Camões, gosto de as usar) utilizar o mesmo género de discurso esclerosado e simplório em textículos ou linguados mal-enjorcados, chilros e pretensamente jocosos para apostrofar aqueles por quem acabei de tomar partido, fica desde já notificado: agora também é comigo.
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Vale

Fernando Campos
Maiorca, Figueira da Foz, 16 de Julho de 2013


*nota de rodapé:
a Esquerda a que me refiro não tem nada que ver com aquela esquerda fofa que sente necessidade de se proclamar “democrática” (naturalmente para tranquilizar a direita e os mercados e garantir os patrocínios), não – a Esquerda em que me situo basta-lhe a acção participada dos cidadãos, não depende de patrocinadores e não procura tranquilizar a direita. Pelo contrário, é o seu pior pesadelo.
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11 comentários:

trepadeira disse...

É uma satisfação.
Pois,há que tomar partido,lutar de forma organizada e consequente.
Um texto admirável.

Forte abraço,

mário

Rogério Pereira disse...

Fiquei a saber
E deste-me grande alegria, podes crer!

Rogério Pereira disse...

Não me contive e dei a noticia. Para que se saiba!

trepadeira disse...

Caro Fernando

Regresso para notificar,não resisto a roubar,com a devida vénia,o texto.

Abraço,

mário

Pata Negra disse...

Boa texto/testemunho/desabafo/discurso - só por este, se vivesse na Figueira, votaria CDU, assim como não vivo, voto CDU na mesma.
Um abraço da mesma camioneta

jrd disse...

Excelente!
No país demasiado "elástico" faz falta a posição firme de mais um artista plástico.

cid simoes disse...

Uma grande alegria...
“Porque los guerreros verdaderos

no descansan descansando”.

(Gil Vicente)

Sérgio Ribeiro disse...

Parti pris... como diria um português de gema que gosta de se exprimir em francês.

Um texto que é um modo e exemplo,o que é muito mais que uma moda e pretender ser exemplar.

Obrigado!, um abraço

Camolas disse...

Não sei escrever tão bem quanto gotaria como tal faço minhas as suas palavras e com sua permissão lançá~las-ei aos 4 ventos.

Judite Castro disse...

:)
Obrigada.

Graciete Rietsch disse...

Já conhecia o desenhos de Fernando Santos de alguns blogs que leio. Agora fiquei a conhecer o homem e afirmo, com orgulho, que é digno da CDU e a CDU digna dele.
Obrigada Fernando Santos.
Um beijo, cheio de admiração.