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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Breve declaração política

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Embora há anos tenha participação política activa emprestando o meu nome a uma candidatura (sempre a mesma, a CDU, Coligação Democrática Unitária), esta é contudo a primeira vez que, levado pelas circunstâncias, me vejo (e ao meu nome) numa posição ou lugar elegível. Este dado, assim adquirido, também me dá mais responsabilidades. É neste contexto que, agora que se inicia a campanha eleitoral, encaro como útil a publicação de uma declaração de princípios. Que é também a primeira promessa eleitoral que faço na minha vida. Faço-o no meu blog e na minha página do Facebook, que são os meios que tenho, confiando na viralidade das redes sociais para a sua justificada repercussão.

Declaro que não sei quem fez isto (o que a foto documenta). Nem quero saber. Considero no entanto que, ao contrário do que por vezes se diz e alardeia,
 a sociedade civil existe mesmo. Mesmo em Maiorca existe alguém que se importa. 
E importa-se ao ponto de se tirar dos seus cuidados e fazer este notável manifesto gráfico de uma evidência que nos envergonha a todos.

Declaro mais, solenemente, que, se eu for eleito e a lista que represento vencer as eleições, esta placa tão veementemente pichada ficará em exposição permanente, para opróbrio dos responsáveis, o tempo que for necessário - até à conclusão definitiva das obras de recuperação do Paço de Maiorca.

Declaro ainda que só então, recuperada a dignidade de um património único no concelho, a placa será retirada (e para um museu, de memória histórica).

Vale,
Fernando Campos

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sábado, 9 de setembro de 2017

A cavaca da saúde

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Ana Rita Cavaco é bastonária de uma coisa em forma de assim, a Ordem dos enfermeiros (foi eleita à segunda volta numas eleições com 87,65% de abstenção). Já foi governante (adjunta do secretário d'estado da saúde do XV Governo Constitucional, liderado por Durão Barroso). Presumo que até tenha sido escuteira, menina de coro ou acólita e até tenha participado em imensas e glamorosas acções de voluntariado.
Recentemente apoiou, com as mãos ambas, e a pés juntos, uma greve de zelo por tempo indeterminado (leram bem) nos hospitais públicos, decretada por dois sindicatos de enfermeiros.

Muito haveria que dizer sobre a greve de zelo
Para o escritor Rui Cardoso Martins, por exemplo, “A greve mais estranha é a greve de zelo, que é esquizofrénica: distorce o direito à greve, o direito ao trabalho e, por assim dizer, o próprio Direito do Trabalho, há uma hilariante legislação para a explicar: "O abrandamento da actividade produtiva pela aplicação minuciosíssima, literal e chicaneira dos regulamentos existentes", escreve o prof. Bernardo da Gama Lobo Xavier. Isto é, "não há propriamente uma abstenção da prestação do trabalho, mas a sua aplicação em termos anormais". Imaginem o funcionário da alfândega abrindo as malas de todos os passageiros,conferindo os pêlos da escova de dentes, etc. Quando certos profissionais "resolvem dar um funcionamento rígido aos regulamentos dos serviços, causando assim enormes atrasos". A greve de zelo, portanto, não é ir para o trabalho e não fazer nenhum, é fazer de mais. As coisas param de tanto funcionar.”
Já para mim, a greve de zelo é, simplesmente, a greve dos cobardes e dos sonsos. A greve dos que não têm tomates para parar o trabalho e dizer em voz alta: não faço isto a não ser que me paguem mais. É a greve dos merdosos.

Mais palavras para quê.

Ah, esta cavaca também pertence a outra coisa, esta em forma de assado: ao Conselho nacional do PSD, eleita nas listas de Passos Coelho. E agora também, claro, à minha galeria de caricaturas do rosto da classe dirigente.
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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O walesa da Moita

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E horas depois, quando chegou à clareira, enveredou, decidido, pelo caminho dos cardos e das árvores sinistras, a gritar desafiante para a floresta:
- Bem sei que podem perseguir-me, arrancar-me os olhos, torcer-me as orelhas, transformar-me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei-de ser infeliz PORQUE NÂO QUERO.
E João-sem-medo continuou a subir o caminho árduo, resoluto na sua pertinácia de ocultar o medo - a única valentia verdadeira dos homens verdadeiros.
    José Gomes Ferreira, in Aventuras de João sem medo

Chora-que-logo-bebes está que nem pode. Consternada pelas repercussões catastróficas da aposentação de António Chora.
Chora é deputado municipal na Moita desde 1975. Além disso, foi deputado na Assembleia da República. Pelo Bloco de Esquerda. Mas foi sobretudo um sindicalista sui-generis. Escolhido a dedo pela administração da Auto-Europa para líder da comissão de trabalhadores (a empresa não negoceia com sindicatos) durante o seu consulado de vinte anos nunca a empresa conheceu uma greve. Mas além disso, criou empregos. Só visto: “Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil”, disse ele ao “Negócios”.
É um espanto que nunca tenha sido condecorado pelo Cavaco, outro choraquelogobebense emérito.

A aposentação do seu filho dilecto, depois de ter visto chumbados pelos trabalhadores dois acordos negociados pela CT, foi pois muito mais do que uma tragédia, foi uma catástrofe, uma hecatombe para Chora-que-logo-bebes.
Sete meses apenas depois de se aposentar eis que a Auto-Europa está em brasa – em greve – a comissão de trabalhadores que lhe sucedeu demitiu-se e os comunistas preparam o assalto ao castelo, diz Chora, fungando. Se eu ainda lá estivesse esta greve já estava desconvocada – regougou, resfolegando.
Os choraquelogobebenses estão inconsoláveis. Não podem trabalhar aos sábados sem horas extraordinárias, como manda a administração. Agora que os vermelhos fizeram a greve (pularam a cerca, assaltaram o castelo, o palácio d'inverno) os chora-que-logo-bebenses temem represálias, bichas de sete bocas, gigantes de cinco braços, dragões de duas goelas, as sete pragas do Egipto. As televisões de Chora-que-logo-bebes enchem-se de especialistas, como o Camilo Lourenço e o Sousa Tavares, que se manifestam espavoridos e preocupados com a imagem de Chora-que-logo-bebes perante os investidores estrangeiros, com as reacções dos mercados, com o futuro da empresa, o emprego, os dezporcento das exportações, enfim plo pibe de Chora-que-logo-bebes. Choram dia e noite, baba e ranho, em chuveirinho, soluçante e abnegado.
- E se os alemões se zangam connosco e vão mandar fazer automóveis a diesel para a Polónia ou assim? - carpem uns. - Diz que por lá os sindicalistas são todos fofinhos e quase tão anti-comunistas como o choraquelogobebense da Moita - jeremiam outros.

Mas nem tudo está perdido. As esperanças dos choraquelogobebenses estão agora todas depositadas na eleição da nova comissão de trabalhadores. Como a empresa não negoceia com sindicatos, os choras esperam que os trabalhadores, como de costume, elejam alguém nomeado pla administração. Aí sim, a paz social voltará ao vale dos soluços.

Só então António Chora, aliviado, se dedicará finalmente ao seu sonho de aposentado: “dar "aulas de sindicalismo" em escolas técnico-profissionais. Ou seja: ensinar aos estudantes que no mundo do trabalho "isto não é só obedecer a tudo", que têm direitos e que os devem exercer - e como o fazer”. 
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sábado, 26 de agosto de 2017

O eu e o outro

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Nunca recolhi material. Africano nascido em Moçambique, mas medrado em Angola desde mal saído do berço, a Angola devo a minha vida de escritor.
Quando em 1937 abandonei Angola, estava longe de vir a ser um escritor. Depois de reviver a minha vida de Angola, fazendo tábua rasa de ideias feitas, dando-me conta de erros de interpretação originados pelo clima social vivido desde a infância numa sociedade em formação, heterogénea pela sua própria natureza, sem outras raízes que não fossem os seus interesses circunstanciais, e sempre marginal, colocado, no tempo e no espaço, numa posição que possibilitou novas perspectivas: o homem e sua forte autenticidade.
E nunca mais deixei de estar em Angola, embora habitando em Lisboa ou no Rio de Janeiro, em Paris ou em Buenos Aires. Debruçado sobre a minha vida africana, servindo-me da minha própria experiência e da experiência dos homens que me levaram a meditar sobre a sua vida e no seu destino, procurei estudá-los, situando-os na sua idade histórica, no condicionamento do seu campo económico-social e nos planos das suas relações humanas. O homem em face do destino e nos limites da sua condição humana.
Libertado de todos os preconceitos e prejuízos, sempre considerei os homens humanamente iguais, embora de civilizações diferentes. Nenhum homem de cultura progressiva aceita a superioridade desta ou daquela civilização e sabe que os seus valores morais essenciais tem uma base comum. Daí a universalidade do homem para além das coordenadas definidas pelos padrões culturais que caracterizam as várias civilizações. Fora, ou à margem desta verdade, o homem toma posição racista, seja ele branco, amarelo ou negro. Uma posição anticultura. Tudo o mais diz respeito ao progresso das técnicas e das ciências, que qualquer homem de qualquer raça aprende, aplica e desenvolve consoante a sua capacidade e os meios que ponham ao seu dispor
Castro Soromenho
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Agora que, “à margem desta verdade”, está de novo em moda no mundo o preconceito racista, Portugal, como sempre, trata afanosamente do seu aggiornamento e, em simultâneo, da sua negação. Ao mesmo tempo que pululam nas redes sociais, e até nos media tradicionais, velhos preconceitos que se julgavam ultrapassados, o país oficial, com a boa-consciência que dá a má-memória – o nacional-porreirismo é filho lídimo da estupidez natural - assume o passado colonial da pátria como uma coisa neutra, ou até mesmo “compassiva“. Do género ”tá bem, a gente escravizava os gajos, obrigávamosios a trabalhar de borla e tal, mas era um são convívio, dávamos-lhes vinho e porrada a horas certas e até nos deitávamos com as gajas e tudo. Uma coisa que os esquisitinhos dos bifes, e os belgas, esses racistas de merda, nunca fizeram. E isto sem falar dos cabrões dos francíus; e dos estafermos dos alemões, os piores de todos.” Foi mais ou menos este discurso imbecil (somos os melhores dos piores) que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi fazer à ilha de Gorée (ao largo de Dakar, no Senegal) um entreposto negreiro português desde o século XVI até ao XIX.
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Apesar de haver intelectuais (como a corajosa Alexandra Lucas Coelho) que hoje se manifestam abertamente por uma assunção pública de responsabilidades pelo desvario esclavagista do qual o país fez depender a sua economia por mais de quatro séculos, a verdade é que nunca houve por parte dos intelectuais portugueses (das ciências ou das letras) qualquer interesse pela humanidade do outro, do colonizado. Ou então nunca o manifestaram por obras. Envie-se um português à Lua ou a Marte e ele nunca manifestará um mínimo de curiosidade, só saudades de casa. Portugal esteve quatro séculos em Macau e nunca produziu um sinólogo - nunca nenhum português se interessou pela China, estudou a sua língua, a sua história, a sua cultura – é o mesmo que viver quatrocentos anos na savana e nunca reparar na existência dos elefantes. O mesmo aconteceu na Índia. E na América do sul. E na África.
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Também é verdade que houve excepções. Honrosas, ainda que a ditosa pátria as prefira esquecidas, e tão poucas que se podem facilmente nomear. O caso de Wenceslau de Moraes, por exemplo, que se fixou no Japão e se deixou mansamente japonizar, e o de Castro Soromenho, que se descobriu escritor e etnólogo quando deixou Angola para um longo exílio.
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Embora hoje seja completamente ignorado em Portugal e Angola, muito justamente, o reclame como um dos seus, a verdade é que Soromenho não se angolanizou. Ele foi apenas um escritor português raro, que nunca teve desassossêgos existenciais com a alma lusitana, delíquios de saudade da sardinha assada ou devaneios delirantes com a suposta grandeza da pátria amada ou da língua; também jamais carpiu melancolias ou perplexidades sobre a identidade nacional. Soromenho interessava-se genuinamente pelo outro, pela sua condição humana, e pela humanidade de ambos - só assim soube, com sincera curiosidade, como etnólogo, estudar outra cultura sem condescendência ou preconceitos de superioridade e, como romancista, mostrar sem qualquer manto diáfano de fantasia, a corrupção moral do sistema colonial português em toda a sua nefanda e crua iniquidade. E fê-lo em português. Um português assim era demasiado raro, demasiado excepcional, demasiado humano para ter pátria. E assim morreu. Apátrida, em S. Paulo, Brasil, como referia a carteira de identidade para estrangeiros de que era portador.
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ramalho e o mistério da praia da claridade

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"A Figueira participa do carácter que tem Coimbra, um pouco para pior, porque os estudantes que frequentam a Figueira são ordinariamente os piores, os mais broncos, os que não saem de Coimbra, aqueles em que os efeitos do vício universitário se desenham mais profundamente.

Estes senhores com o seu afectado desdém, com o seu mau ar de críticos, com o seu espírito de troça, e os srs. professores com a sua sobranceria catedrática, constituem o grande senão da sociedade da Figueira, sobre a qual destingem a sua cor especial.
E, não obstante, nenhuma outra praia em Portugal possui as condições desta para tornar agradável a estação dos banhos.
Batida do grande mar, tendo à direita a bonançosa baía de Buarcos e à esquerda os rochedos em que assenta o castelo de Santa Catarina, que defende a foz do Mondego, a vila da Figueira oferece aos banhistas incomparáveis condições.
A povoação é rica pelo comércio do sal e pela exportação dos vinhos da Bairrada.
Uma companhia edificadora tem construído casas agradáveis, em um bairro novo junto à foz do Mondego, em sítio elevado e sadio. Neste bairro há um hotel, Foz do Mondego, onde se recebem hóspedes a 1$000 reis por dia.
A vila tem ainda mais dois hotéis, o Figueirense e o da Praça Nova, um pequeno teatro, uma praça de touros e dois clubes: a Assembleia Recreativa, no bairro novo, onde se dança às terças e sextas-feiras, e a Assembleia Figueirense, no antigo palácio dos condes da Figueira, onde se dança à quinta-feira e ao domingo.
Além das soirées nos dois clubes, as senhoras costumam organizar concertos e bailes. A soirée é uma das grandes preocupações desta praia, e não será por falta de contradanças que os banhistas deixarão de se regozijar neste sítio.
As burricadas e os pic-nics a Buarcos, ao farol da Guia, ao palácio de Tavarede, vão-se tornando cada vez mais raros.
Por uma disposição superior, cujo alcance debalde nos esforçamos por atingir, é proibido o ingresso dos burros no interior da vila, o que não obsta a que lá entrem muitos - disfarçados.
O passeio predilecto dos banhistas é a Palheiros, pequena povoação de pescadores, a meio caminho de Buarcos, onde recolhem as redes da sardinha.
Na Figueira, entre a população fixa, que habita a antiga vila e frequenta a Assembleia Figueirense, e a povoação flutuante, que habita principalmente o bairro novo e frequenta a Assembleia Recreativa, não há hostilidades, mas existe uma forte emulação provinciana que se descarrega muitas vezes em pequenos episódios dignos de Dickens ou de Balzac.
A viagem da Figueira é bastante pitoresca, mas não isenta de incomodidades. Quer o viajante chegue a Coimbra às 3 1/2 horas da tarde, quer chegue às 4 horas da manhã, tem de esperar até às 6 horas da manhã ou até às 2 1/2 da tarde para poder seguir para a Figueira na diligência, que gasta seis horas neste caminho e pede 1$000 reis por cada lugar.
Na imperial da diligência, como artista, em companhia alegre; ou em carruagem descoberta, que se pode alugar em Coimbra, o caminho não parece longo, porque a estrada é boa e a paisagem lindíssima.
Entra-se na vila por uma estreita garganta que se alonga para o viajante como o bico de um funil. Se não é fácil a entrada pela foz do Mondego...a entrada em diligência pelo funil acima referido não é menos perigosa. Somente, pela via de terra é permitido ao viajante um expediente, que se não usa na superfície líquida, e vem a ser: desembarcar a distância respeitosa e entrar cada um na vila pelo seu pé.

Ramalho Ortigão in As praias de Portugal - 1876

Quando Ramalho Ortigão passeava pla praia da claridade o seu largo chapéu desabado e o seu bigode frondoso, à segundo império, nenhuma outra possuía então “as condições desta para tornar agradável a estação dos banhos”. Nesses tempos a Figueira era uma povoação “rica pelo comércio do sal e pela exportação dos vinhos da Bairrada”. Os banhistas ricos, de hotel e de salão, chegavam em Junho e por cá residiam até meados de Setembro; só em Outubro vinham os pobres, os gandareses, os banhistas de alforge - todos os dias pla fresca, regressando a casa pla noitinha.

Entretanto - embora se tenha esforçado sempre por se parecer com a imagem que quis ver do relato de Ramalho, e sempre sem reparar demasiado no seu óbvio acento irónico - a Figueira mudou. Foi mudando. Hoje em dia já nenhum banhista aqui reside de Junho a Setembro.

Recentemente Isabel Brites, presidente de uma pitoresca associação de restaurantes local, confiou a um jornal que “Estamos a ter, definitivamente, o verão mais baixo dos últimos anos”. E que “há menos turistas em permanência. Durante o dia não se consegue encontrar um lugar de estacionamento onde colocar o carro, mas de noite a cidade está devoluta. Aquilo que nós concluímos é que as pessoas vêm de manhã à praia e regressam a casa ao final da tarde; ou seja, só o banhista de alforge vem à Figueira - mas já não fica de Junho a Setembro; nem sequer para as soirées. O que é um mistério insondável, porque à terrinha não lhe falta animação.

Entretanto também foi revogada a proibição de entrada de burros na vila, o que é irrelevante porque a livre circulação - tanto de visitantes como de residentes, disfarçados - sempre foi um facto reconhecido que justifica plenamente a afirmação de que na Figueira é carnaval todo o ano.
A vila fez-se cidade. Já não tem teatro (nem pequeno nem grande), nem contradanças ou concertos, nem sal, nem vinhos da Bairrada para exportar, nem folha periódica onde o comércio local possa fazer publicar os seus anúncios (é notório, aliás, que a cidade já quase não tem comércio local).
Mas tem casino (uma catedral), praça de touros, cinema (quatro salas num buraco, num centro comercial), alguns hotéis, e muitos e muitos bares e restaurantes e cervejarias. E outras tantas grandes-superfícies-comerciais. Ah, ainda tem comboio para Coimbra. E, isto é claro e indiscutível, muito melhores acessibilidades rodoviárias do que no tempo do Ramalho.

Da ramalhal figura é que nem sinal. Nem uma placa, pequeno busto ou memorial. Nada. Nenhum vestígio do seu passo enérgico e da sua grossa bengala, inglesa, nem da sua ironia fina.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O engraçadismo é triste

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si le mot cul est dans une phrase, le public, fût-elle sublime, n'entendra que ce mot
Jules Renard

O humor em Portugal, pelo menos o que se publica, é uma coisa triste.
 A verdade é que “os portugueses não sabemos rir com espírito; gargalhamos com os queixos”, como dizia Camilo.
Falta-nos o espírito.
Ter espírito, como presumo que o entendia Camilo, é ter mundo, referências e, em simultâneo, um certo distanciamento de si próprio e do seu tempo que muitas vezes convoca o desconforto ou a incomodidade.
O espírito abomina o óbvio, mas aproveita-se do acaso e deleita-se com o invulgar, o imprevisto, até com o incongruente. Para isto é necessário uma certa sofisticação que lhe vem do cepticismo. É impossível achar este desprendimento entre crentes ou prosélitos; neste campo, como se sabe e enunciou José Alberto Braga, “o espírito sopra ao contrário”.
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No humor publicado em Portugal já não há Camilo, nem Júlio César Machado, nem Bordalo, nem Celso Hermínio, nem Eça, nem Ramalho, nem Almada, nem Carvalhais, nem sequer Vilhena ou José Alberto Braga ou Santos Fernando. Deduzo que não haja público, ou mercado, para eles.

Para o que há público, ou mercado, em Portugal é para um engraçadismo sem substância que não seja o gargalhar com os queixos ignóbil, acéfalo, redundante e imbecil. Ocupa a última página dos jornais. Por exemplo, com o desinfeliz da padaria portugueza no correiodamanha e com João Miguel Tavares, no Público. 
E estamos nisto.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

o jovem turco

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Hugo Soares foi eleito presidente do grupo parlamentar do Pêéssedê. Apesar de ser candidato único não fez o pleno entre os seus iguais - num universo de 89 votantes, houve 12 que votaram branco e até um que votou nulo. O jovem Hugo sucede assim a outros vultos, como este e este, da nossa plítica.
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Huguinho é muito jovem mas tem ideias muito antigas. Tornou-se conhecido por ter proposto a realização de um referendum ao direito dos homossexuais à adopção. O jovem turco acha mesmo que todos os direitos humanos devem ser referendados - isto é, devem depender da boa-vontade de uma maioria circunstancial de cretinos.

Mas o jovem otomano de Braga também defende, por exemplo, o fim da educação e da saúde tendencialmente gratuitas (uma ideia estapafúrdia metida a foice e a martelo na Constituição e aprovada inadvertidamente pelo pai fundador do partido). Neste e noutros assuntos Huguinho e a jovem guarda do partido das setinhas para o ar seriam com certeza acompanhados plo cónego Melo, outro bracarense dos quatro costados, plo arcebispo Eurico Dias Nogueira em pessoa e até por todos os prelados do século dezassete pra trás e pra diante.
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A coisa, por tanto, promete. Os jovens turcos matam o pai por que se identificam mais com os egrégios avós. Mas digam lá que não há qualquer coisa de pifiamente freudiano nisto tudo.
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